domingo, 14 de agosto de 2011

DIA DOS PAIS - UM JEITO DIFERENTE DE COMEMORAR - REFLETINDO

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"O pai deve se preparar para um dia não ser pai.
Não que deixe de ser, mas que entenda que haverá um período em que o filho vai cansar do que representamos. É tão cansativo concordar sempre, tão chato alguém que tem sempre razão. Ele irá combater a nossa figura com toda a ironia que dispõe, porque acredita que temos culpa naquilo que ele está sofrendo.
A relação filial depende do término da idealização. Não somos os melhores pais do bairro, somos os pais que podemos ser.
É o que chamo de fim do feitiço do bebê, daquela relação harmoniosa de que o pai e o filho são a mesma coisa.
O desencanto virá, é uma previsão inadiável, surgirá com o nosso desemprego ou quando nos separamos ou quando cometemos uma deselegância em público. Não demora, a decepção chega, esteja pronto, ninguém é perfeito a ponto de esconder os próprios defeitos durante a vida inteira.
O filho não expressará sua frustração somente a partir de insultos, manhas na mesa e choro ao dormir – sintomas óbvios. Faz também de formas mais secretas e que muitos nem identificam.
Uma delas é, de repente, gabaritar as provas da escola e passar de aluno C para A. Pensaremos que ele finalmente encontrou a vocação, que agora decolou para Harvard. Cuidado, grandes alunos estão escondendo grandes problemas. São os mais inteligentes, disfarçam os pontos de críticas para conquistar a indiferença. Como não têm desempenho ruim na escola, parece que está maravilhoso. Os conceitos tornam-se álibis para cultivar tiques e fobias em paz.
Já ouvi casais dizendo diante do orgulhoso boletim do filho: “Não preciso mais me preocupar com ele!” Sim, precisa se preocupar, agora mais do que nunca. O acerto não é isolado. Veja se ele não anda antissocial, se não está falando baixo, se procura contar seu dia...
O que é bom não é de todo positivo, o que é ruim não é de todo negativo.
Assim como é provável que o filho, nalgum momento, largará de nos chamar de pai e adotará o nosso nome próprio como referência. Cheira a desamor, tampouco é; trata-se de um distanciamento necessário para criar sua identidade. Vicente, meu filhote, inventou de me caracterizar como “Ele”. Virei um demônio, indefinido. No começo, me magoou. Depois, larguei de corrigi-lo. Pai é mesmo uma palavra difícil. Em vez de defender o meu desapontamento, é hora de ajudá-lo. Esclarecer que não sou seu centro do mundo, que ele está certo em procurar seus gostos e empatias fora de mim.
Já fui menino, é um horror amadurecer, vem os pelos, a voz muda, nos sentimos feios, não controlamos a sexualidade, sequer entendemos os hormônios, há um medo de que os outros também notem nossa transformação. É uma solidão que somente a timidez suporta.
Para o filho não ser um monstro não podemos fingir que somos heróis. "

Fabrício Carpinejar para a Revista Crescer

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