quinta-feira, 29 de abril de 2010

TÁ QUENTE OU TÁ FRIO?

Estudos sugerem que baixa na atividade solar não reduzirá aquecimento global, mas resfriará a Europa

Imagem do satélite SDO, lançado pela Nasa (agência espacial americana), mostra explosão de plasma na superfície do Sol

 CLAUDIO ANGELO  EDITOR DE CIÊNCIA DA FOLHA DE SÃO PAULO  (25/04/2010)

Os rumores sobre o planeta mergulhar em uma nova era glacial devido a um enfraquecimento da atividade solar neste século foram fortemente exagerados. Um novo estudo alemão mostra que, por mais que o Sol poupe a Terra de seus raios nas próximas décadas, o resfriamento que isso causará não será suficiente para contrabalançar o aquecimento causado pelas emissões de CO2.
Isso, claro, se você não morar na Europa: pois uma outra pesquisa, recém-publicada por cientistas britânicos, sugere que a baixa na atividade solar causará um aumento no número de invernos rigorosos no Velho Continente.
Parece uma contradição, certo? Mas, na verdade, os autores de ambos os estudos dizem que um não invalida o outro. É o tipo de paradoxo que você ganha quando tenta prever algo tão complexo quanto o clima.
"Embora a correlação que eles descobriram não seja acachapante, ela é certamente crível, pois bate com outros estudos que apontam na mesma direção", disse sobre o estudo britânico o astrofísico Georg Feulner, do PIK (Instituto de Pesquisa de Impactos Climáticos de Potsdam), autor do estudo alemão. "E trata-se de um efeito regional."
Os dois trabalhos partiram de uma mesma constatação: desde os anos 1980 o Sol está atravessando um período de baixa em sua atividade. O número de manchas solares diminui, e, com elas, o de regiões muito ativas ao redor. Isso reduz a quantidade de radiação que sai da superfície solar e chega à Terra.
As manchas solares têm pico de 11 em 11 anos, e um mínimo que dura de um a três anos. Mas, de tempos em tempos, o Sol parece atravessar "grandes mínimos", períodos longos de baixa atividade. Quando isso acontece, o planeta esfria.
O último desses grandes mínimos aconteceu no século 17 e é chamado de mínimo de Maunder. Ele coincidiu com um período conhecido como Pequena Era do Gelo, no qual a Europa ficou em média 1C mais fria durante um século.
Parece pouco. Mas, para dar uma ideia, a diferença de temperatura média entre a última Era do Gelo (há 12 mil anos) e as temperaturas atuais é de apenas 5C.

Torcida "cética"
O autor do estudo britânico, Mike Lockwood, da Universidade de Reading, afirma que provavelmente o Sol está hoje "no meio do caminho de um novo mínimo de Maunder".
Isso tem levado alguns pesquisadores a prever um resfriamento global no século 21. A hipótese é especialmente popular entre os negacionistas da mudança climática, que veem na baixa solar um argumento para não gastar em corte de emissões ou reduzir o consumo de combustíveis fósseis.
Entram em cena Georg Feulner e seu colega de Potsdam, o climatologista Stefan Rahmstorf. "É um assunto interessante e bastante discutido pelo público cético, então resolvemos responder a essa questão de uma vez", contou Feulner à Folha, por e-mail.
A dupla alemã usou dados sobre o clima do passado para reconstituir a irradiação solar total durante o mínimo de Maunder num modelo climático de computador. Eles verificaram que o valor de atividade solar que melhor reproduzia as temperaturas verificadas durante a Pequena Era do Gelo era uma queda de 0,08% na irradiação total. Devido às incertezas na reconstrução do clima no século 17, eles também usaram um valor de irradiação solar muito mais baixo, no qual a queda na atividade é de 0,25%.
Em seguida, rodaram o modelo usando dois cenários de emissões do IPCC (o painel do clima da ONU): um pessimista, no qual a temperatura global chega a 4,5C a mais em relação à média do século 20, e um menos pessimista, no qual ela atinge "apenas" 3,7C.
Descobriram que o efeito de resfriamento induzido pela baixa na atividade solar é modesto: mesmo que o Sol reduza sua irradiação em 0,25%, o resfriamento é de apenas 0,3C -o que não faz nem cócegas no aquecimento antropogênico.
Corrente de jato
O problema é que esse resfriamento não se distribui igualmente por todo o planeta, e há efeitos regionais que o modelo alemão não considera. O estudo de Lockwood, publicado no periódico "Environment Research Letters", afirma que na Europa, nos próximos anos, a redução na atividade solar deve produzir invernos tão rigorosos quanto o de 2009-2010, que viu nevascas recorde no Reino Unido, por exemplo.
Segundo Lockwood, a explicação mais provável para o fenômeno é o bloqueio da corrente de jato, como são chamados os ventos fortes que sopram sobre a Europa e o norte da América do Norte.
O bloqueio acontece quando a corrente de jato se dobra sobre si mesma, tomando a forma de um "s". Isso muda o regime de ventos sobre o continente, permitindo que ventos frios soprem ali, derrubando a temperatura no inverno. Foi o que aconteceu neste ano.
Vários estudos já relacionaram as baixas na atividade solar com o bloqueio da corrente de jato. Segundo Lockwood, portanto, os europeus podem ir se acostumando -embora ele ressalte que isso não altera a tendência global de aquecimento.

Outro lado

A Folha procurou Sallie Baliunas, astrofísica da Universidade Harvard (EUA) que é uma das maiores defensoras da hipótese de resfriamento global causado pela baixa na atividade solar. Não obteve resposta.

Nenhum comentário: